domingo, 11 de março de 2012

Um ano de Irlanda

Eu comecei a escrever esse post e quando percebi já tinha mais de quatro páginas eu resolvi parar. A verdade é que um post é pouco para descrever o que significou esse um ano para mim ou o quanto eu aprendi. Sai do Brasil com muitos sonhos e esperanças. Esperava aprender inglês rapidinho e sair pelo mundo escrevendo e fotografando. Bem, não foi bem isso que aconteceu.

O inglês não esta aquilo que eu esperava e talvez por isso não veja claramente a evolução, também a grana não esta boa para sair viajando e escrevendo, mas reencontrei o prazer pela escrita e, nessa trajetória, descobri muita coisa sobre mim. Além disso tem outras que aprendi ou percebi (*).

  • Aprender uma segunda língua é muito mais do que decorar palavras e verbos, mais do entender a estrutura é ir a fundo na cultura da língua e vencer desafios pessoais. O grande obstáculo não é entender ou lembrar das palavras é confiar em si mesmo. Percebi que em geral a gente sabe muito mais do que imagina;
  • Percebi que não tenho mais medo de pegar o telefone e falar, em inglês, com alguém do outro lado da linha, descobri que é muito fácil resolver as coisas por telefone na Irlanda;
  • Não me preocupo tanto se cometo erros ou não de gramática e pronúncia, aprendi que faz parte do processo cometer os erros, lutar contra eles, é forçar a si mesmo a aprender algo que ainda não esta pronto;
  • Aprender uma segunda língua é muito mais do que decorar palavras e verbos, mais do entender a estrutura é ir a fundo na cultura da língua e vencer desafios pessoais. O grande obstáculo não é entender ou lembrar das palavras é confiar em si mesmo. Percebi que em geral a gente sabe muito mais do que imagina;
  • Mágica é a palavra que mais lembro quando passei a ler mais em inglês. Queria ler Shakespeare, mas percebi que começando com adaptações para o meu nível de inglês dariam muito mais prazer e mostrariam mundos que eu não lembrava desde a infância. Quando passei a ler em inglês por prazer, foi como se eu tivesse sido alfabetizado novamente. Lembrei das primeiras vezes que peguei um livro na mão.
  • Tem muito, MUITO, MUITO brasileiro na Irlanda. É possível você fazer quase tudo, sem precisar falar inglês e isso inclui abrir conta em banco, alugar casa, comer em restaurante, fazer compras, etc e etc..
  • O Couchsurfing é uma COMUNIDADE forte mesmo. É o real conceito de comunidade, eles usa a internet para socializar e não para se individualizar. Você não esta sozinho em nem lugar do mundo e ela realmente funciona. Ah, e não se trata de contabilizar ou colecionar amizades, trata-se de viver momentos.
  • Lembrei como é bom andar de bicicleta, a sensação de liberdade sobre duas rodas que eu sentia quando tinha dez anos;
  • percebi que a melhor forma de uma pessoa tem de dizer que gostou da sua comida é quando ela repete;
  • Aprendi que o mundo é realmente grande, mas as distâncias são pequenas.
  • Aprendi que odeio trabalhar na chuva, mas que amo caminhar na chuva. Aprendi que é libertador chorar quando as gotas de água caem no rosto, você lava a alma e o corpo ao mesmo tempo.
  • Os dias de sol são sempre dias especiais, mas os dias de chuva tem o seu charme.
  • Aprendi que a gente cai feio e muitas vezes não tem uma mão estendida para nos ajudar a levantar, mas não é porque estamos sozinhos. É a maneira que a vida tem de nos testar, de nos pergunta se a gente quer continuar. E as vezes, a gente diz sim e ela passa a rateira novamente, dizendo algo como “ah, desculpa, mas eu não entendi direito”. Mas do mesmo jeito que ele derruba, quando a gente se esforça e não consegue ela dá uma mãozinha, do tipo, “ta certo, acho que estou sendo muito severa mesmo”. No final ela só quer que a gente aprenda algumas coisas e entenda que sonhos não são fáceis e que o impossível só esta na nossa cabeça;
  • Percebi que as amizades verdadeiras andam sempre com você. As pessoas que eu amo, estão todo dia comigo e se por algum momento eu penso o contrário, eles dão um jeito de mandar uma mensagem, carta ou sina de fumaça. Não importa se o fuso horário é de 4 ou 12 horas, tenho certeza que estarei próximos dos meus verdadeiros amigos.


Bem que o segundo ano na Irlanda começe. 

Nos vemos por aqui.

(*) eu tive quer cortar bastante coisa, mas vou postando para vocês o resto.

sábado, 10 de março de 2012

Diabo, Freud, detalhes


Uma vez escutei uma frase que foi atribuída ao Freud e era mais ou menos assim “o diabo mora nos detalhes”. Não entendi o contexto na época e em vão procurei o texto do Freud sobre isso, mas uma coisa ficou, os detalhes. Não sou um caçador de demônios ou idolatrador do Diabo, mas com o tempo tornei-me, como me chamo, um apreciador de detalhes.


Gosto das pequenas coisas em grandes engrenagens; aquele pequeno parafuso que foi construído especialmente para aquela função, que demorou mais do que a engrenagem em si para ser produzida. Esse pequeno parafuso tinha que ser feito manualmente e perfeitamente irregular para a função.

Não sou o único, lembro que o Amyr Klink na construção do Paratti teve um caso semelhante, no qual ele enlouqueceu a equipe em busca de parafusos “perfeitos” para que tudo desse certo. São detalhes. Mas eles me fascinam. Lembro que na saga StarWars, no terceiro episódio, os Jedis lembram de apagar as memórios do R2D2 e do C3PO. Detalhes, mas isso explicava uma dúvida antiga minha:por que os robôs não revelaram a verdade.


É claro que percebo também quando eles não estão presentes. Por exemplo, em um filme que se passa em Paris e todo mundo fala inglês. Para mim não faz sentido ou no mínimo criar uma desculpa para que eu posso entrar na história. Em Meia-noite em Paris há essa desculpa; eles são turistas, vão para área de turistas e a noite, os artistas são americanos, estrangeiros. É um detalhe em toda a história do filme, mas eu gosto de detalhes, acho que aprendo muito com eles.


Quando um artista, diretor, escritor, ator presta atençao aos detalhes ele esta querendo dizer, em outras palavras, eu preciso fazer do meu trabalho o melhor porque alguém vai assistir, ler, ver, enfim para um tempo de suas vidas para olhar o meu trabalho. O mínimo que preciso fazer é que ele esteja no mínimo bom. É claro que tem a crítica né? A crítica má, que só quer destruir um trabalho de meses, anos, as vezes até décadas. E onde ela vai procurar as falhas? sim, nos detalhes. Mas e quando se trata do ser humano?


A partir de agora, comecei a entender melhor o Freud. É nos detalhes mesmo que esta o Diabo; só a espera de uma oportunidade para se mostrar. Ele passa desapercebido pelo trabalho da gente e quando menos esperamos, ele aparece. Às vezes, nos destrói, mas acho que o Freud não queria falar de destruição, mas de revelação. É que nos detalhes mostramos quem realmente somos e também a grandiosidade de um trabalho. É como se fosse o inconsciente, aquilo que escondemos até então, se revelasse nos detalhes. Penso nas pessoas que admiro e o que me encanta nelas é que, em geral, suas atitudes comprovam suas palavras. Quero dizer que os detalhes mostram-me que essas pessoas são verdadeiras consigo mesmo.


Hum... É seu Freud, faz sentido a sua frase, o diabo mora nos detalhes.

sábado, 3 de março de 2012

Entre a fé e a esperança


sabe quando tudo parece da errado
mas algo dentro de você pede para continuar?
O nome disso é fé.


Há algumas semanas li a frase acima e logo lembrei de um dos ensinamentos de um amigo budista. Ele dizia que se há muito obstáculos para algo que você quer, você esta no caminho certo e deve continuar. É um sinal que você precisa lutar pelas coisas que valem a pena. Então é isso apesar da coisas não estarem no caminho certo devemos continuar, olhar o horizonte e seguir em frente.


Esse olhar para o futuro, essa perseverança é nomeada como fé. Já escrevi que a fé para mim é uma crença absoluta na esperança e na perspectiva de futuro, que é claramente facilmente encontrada na religião; que preenche a alma com uma perspectiva de que coisas boas acontecerão, que amanhã quando o sol iluminar o dia com os seus primeiros raios novas chances de crescimento, preserverança virá. É, enfim, a certeza de que o outro dia virá. Essa fé, em outras palavras é o amanhã. Eu não sou religioso e talvez por isso sempre olho para a fé com um olhar desconfiado.


Ambas, fé e esperança, creem que o amanhã surgirá, que há a perspectiva de um novo dia, enfim algo para acreditar e continuar. No entanto, fé para mim também lembra uma crença em uma direção só. Uma crença absoluta em algo, mesmo que não exista sinais. É algo como se jogar de um avião sem para-quedas, mas certo de que algo acontecerá para salvá-lo; já a esperança é como se fosse uma fé com desconfiança, você não sabe se se salvará quando pular, mas algo dentro de si, diz que alguém pulará atrás com um para-quedas ou o avião esta baixo e algo amortecerá a queda. A esperança é algo como uma fé com sinais. Na fé você fecha os olhos e crê, na esperança você usa as suas forças para enxergar.

Vejo, ainda, que ná fé você continua sem refletir, na esperança, as vezes, você para. Mas quando é a hora de parar de mudar as coisas? Quando é o momento para perceber que talvez seja a hora de parar e quem sabe recomeçar. Quando diferenciar fé de esperança?


É certo que a vida nos dá sinais, mas como interpretá-los. Quando é o momento em diferenciar fé e perseverança de insistência e teimosia. Será que quando as coisas não tão certo e você continua insistindo é sinal para parar ou continuar? Hoje não sei ler os sinais que a vida me apresenta, talvez se anos atrás eu tivesse seguido os ensinamentos budistas, tivesse eu, mais sapiência para tomar as decisões. Mas como escreveu Pierre Schürmann esses dias, “Não perca tempo revendo o passado. A única coisa que isso vai garantir é a certeza de que, se pudesse, muitas vezes faria diferente.”


Encerro não com fé, mas com a esperança de a experiência de hoje me ensinará a sabedoria do amanhã. Encerro buscando enxergar a força que me faz continuar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

E o chimarrão, tchê?

Esses dias estava conversando com uma amiga que pretende vir para Dublin, estudar inglês e viajar. entre uma pergunta e outra, ela perguntou-me: posso levar erva? (antes que alguém pense em outra coisa, quero dizer que sou gaúcho e culturalmente nós tomamos / bebemos chimarrão, bebida esta feita com água quente e erva).

Eu disse claro que pode e lembrei quando eu trouxe  erva para a Europa. Foi em fevereiro de 2009. Eu estava planejando conhecer Paris, Londres e visitar uma amiga que estava em Dublin. É claro que ofereci levar algumas coisas para ela, mas ia demorar um pouquinho porque ia fazer um tour por Londres e talvez Escócia.

Foi uma viagem maravilhosa e aquela erva acompanhou-me ao longo do caminho. Quando cheguei em Paris, não sei porque, mas todos os brasileiros, e só os brasileiros, estavam tendo suas bagagens revistadas. "Caralho, agora danou-se como vou explicar que essa erva não é aquela erva. Eles não vão acreditar" pensei. Mas como bom-alguma-coisa que sou, deixei pra lá e coloquei as malas para revista, com uma cara de indignado, não entendia um bom dia em francês, mas sabia que eles entenderiam a minha. No fundo, eu tava cagado. Imagina, sair de Alvorada (é uma cidade perto de Porto Alegre, não se se esta no mapa) e ser deportado por levar erva-mate.

A minha mala passou e eles nem prestaram atenção na minha existência. Ufa. Fui  correndo para o banheiro (não entendeu, deixa pra lá) e depois fui pegar o trem para o centro. Fiquei maravilhado quando cheguei ao centro e com as ervas.

Dois dias depois, fui para Londres. Dessa vez foi o contrário. Eu estava calmo, até chegar o momento da imigração: fiquei uns 15 minutos, mas pareceram uma duas horas, respondendo aquelas perguntas em inglês. Até hoje, não entendo como eu consegui respondê-las. Passei pela imigração, eu e a Erva. Ela acompanhou-me em Bath, em Edimburgo e Inverness.

Então estava chegando perto ao destino final: Dublin. Uma confusão para conseguir ir até lá, mas no final, conseguimos dar um jeito. Pegamos um ônibus, de Edimburgo para Glasgow. De Glasgow até a barca; atravessamos de barca e chegamos na Irlanda do Norte, em Belfast; De lá, pegamos outro ônibus, e então finalmente chegamos em Dublin: eu e a erva.

Três dias depois, despedi-me dela e voltei para o Brasil. Bela companheira de viagem e o interessante foi, passou tão rápido,  que  nem tivemos tempo para  tomar um chimarrão, tchê.

domingo, 29 de janeiro de 2012

sobre acordar com ressaca sem beber

acordo com uma ressaca e um gosto de guarda-chuva molhado na boca, como se eu tivesse bebido e fumado tudo a noite anterior. mas não, dessa vez não. estava tudo programado para sair, mas algumas coias não deram certos e ao invés de encher a cara preferi por ficar em casa. bom menino.

o problema é que de nada adiantou, a cabeça faiscando de pensamentos e ideias, os olhos vidrados nos seriados americanos e sono desistiu de mim. passava das 5h horas, quando encontrei o sono perdido na madrugada. talvez, os meu sono estivesse perdido nos pubs esperando que eu chegasse, esperando que eu fosse encontrá-lo. nada disso apenas desencontros, como tantos na vida.

acordo desse jeito ressacado sem beber, meio sonolento sem vontade de levantar. por outro lado, meus vícios pularam da cama, tão logo despertei e buscavam nas memórias o gosto da cerveja e as escritas retas dos meu preferidos autores. não, mas dessa vez não com o chato (o saramago é um chato), voltei minhas leituras para algo mais sujo e humano. não nego sou fã dos ver podres e cansados do velho safado. Charles Bukowski.

acordei com uma ressaca sem ter bebido, com uma vontade de viver o que não tenho vivido. enfim, acordei como uma intensidade magnética que quer absorver tudo, daqueles que tem fome e sede de tudo. Vasculhei nas versos tortos e achei um velho conhecido:

I don't know how many bottles of beer
I have consumed while waiting for things
to get better

também não sei, também não tenho resposta para essa indagação, mas sei que amanhã será um novo dia. não vou acordar com ressaca sem ter bebido ou com sono por ter ficado em casa. amanhã vou acordar podre de cansaço e da sujeira do mundo. hoje vou embriagar-me dessa cerveja barata e sujar-me as deliciosas tentações da vida. espero uma única coisa, que meu anjo não esteja de folga.