Esses dias enquanto chovia eu dizia para mim "ah como é bom a chuva". No dia seguinte enquanto chovia eu dizia "que droga de chuva". No exato momento do pensamento eu percebi a minha contradição e veio a imagem da minha avó dizendo: "ser humano sempre reclama de tudo, se tá calor reclama que ta quente, se esfrio, reclama que esta frio. Nunca esta satisfeito".
É talvez, mas eu estava cá pensando e não é bem o sentido de satisfação ou insatisfação que leva a gostar da chuva. Em geral, eu gosto de chuva, mas não quando estou trabalhando e preciso ficar tomando banho com água gelada, não gosto quando visto pra sair e começa a chover; não gosto de chegar molhado nos lugares, não gosto quando tem chuva que impede a gente de fazer as coisas, não gosto de chuva que dura muito.
Por outro lado a chuva tem um significado especial. Minha vó também dizia que a chuva serve pra renovar, que ela limpa a alma. E talvez seja por aí, uma sensação íntima com a natureza, com o universo.
Gosto particularmente quando estou triste e chove, a chuva disfarça as minhas lágrimas e posso caminhar tranquilo por meio das gentes, sem me preocupar com perguntas ou caras de espantos. A chuva disfarça a tristeza e não só as lágrimas. Se você fica quieto em dia de chuva, o máximo que vão pensar é que você esta entediado também. Gosto de tomar banho de mar ou de piscina quando chove porque dentro d'água fica quentinho.
Aqui na Irlanda em geral, chove dia sim, outro também. E volta e meia, me perco nas ruas dessa cidade de Joyce com água no rosto e pensamentos a mil. Porque enquanto a água limpa por fora eu aproveito para fazer a faxina por dentro. É como minha vó dizia a chuva limpa a alma.

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