sábado, 19 de fevereiro de 2005

criação literária...

Para que a leitura não fique muito extensa vou dividir este texto em duas partes. A primeira e a segunda, daqui há alguns dias. Escrevi este texto faz pouco tempo foi em dezembro de 2004, o nome é distância de mim.

DISTÂNCIA DE MIM

Parte I

Eu sei, sei. Sei que ela morreu. Morreu não sei ao certo de quê. Mas sei que morreu e que herdei no coração um buraco. A falta de alguém. Não sei, não peça que eu explique. Eu desconheço as razões dessa dor. Dói, sempre doeu. Mas agora, é uma dor sem motivo. Sem motivo nesta vida.

Um ano havia passado. Neste tempo não havia ido ao cemitério, mas ontem, naquela tarde chuvosa de outono, resolvi aceitar o acontecido. Fui até o seu túmulo. É. Era o teu túmulo que estava lá. E mesmo diante dele, eu ainda não acreditava que estivesse morta. Ainda não acredito! Quando estava diante daquele tumulo, tivemos uma conversa séria. Uma conversa de adulto. É, de adulto... porque todos dizem que criança não fala sério. Eu descordo. Acredito mais na palavras inocentes de uma criança que na retórica hipócrita de um adulto. Eu sou a criança, sempre fui. Até o dia que eu descobrira que havia crescido, e que estava sendo hipócrita ao dizer-me ser criança. Deixa me voltar, quando impesso a devagar sobre as coisas minhas que são de todos, me perco entre os vocábulos na língua e a sintaxe de sua estrutura.

Sabe? Vejo agora que é difícil relembrar aquilo que conversamos. Quer dizer, o que eu falei. Desculpa, mas era muita dor, muita mágoa. Eu precisava dizer aquilo pra você. Quer dizer, estou falando simbolicamente, porque eu não falei para você, falei para um tumulo que representava você ainda vida. Falei tanta merda, disse tanta bosta, quando eu queria dizer apenas que te amo.

É, eu sei. Parece um sentimentalismo barato, mas quando você estava viva era isso que eu queria que existisse entre nós: beijos, abraços, frases de amor... coisas simples que não aconteceram. E sabe por quê? Por que eu não queria parecer um sentimentalista. Mas acontece que nesse não querer ser alguma coisa, eu me tornara algo que eu não queria ser. Eu negava quem eu não queria negar. Eu negava quem eu queria ser. Eu não era eu.

As lágrimas choraram naquele dia de chuva e as gotas de chuva disfarçavam a minha tristeza, mas houve um momento em que eu queria estar triste... houve um momento em que eu queria chorar... houve um momento em que eu queria que TODO O MUNDO SOUBESSE QUE EU ESTAVA SENTIDO A TUA FALTA e isso não me envergonhava. Isso me deixava ser mais humano, isso fazia com que eu sentisse estar vivo. É e sabe? Isso dói muito, perceber que a tua morte fez com que eu percebesse que eu estava vivo, que eu queria viver. É, você morreu. Mas pra mim, você morreu para me salvar. E, eu me culpo. Culpo por uma morte que não cometi, culpo por um poder que não tenho. Quero ser simples e vejo no espelho o reflexo de um pseudo-deus que não sou.

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