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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

E o chimarrão, tchê?

Esses dias estava conversando com uma amiga que pretende vir para Dublin, estudar inglês e viajar. entre uma pergunta e outra, ela perguntou-me: posso levar erva? (antes que alguém pense em outra coisa, quero dizer que sou gaúcho e culturalmente nós tomamos / bebemos chimarrão, bebida esta feita com água quente e erva).

Eu disse claro que pode e lembrei quando eu trouxe  erva para a Europa. Foi em fevereiro de 2009. Eu estava planejando conhecer Paris, Londres e visitar uma amiga que estava em Dublin. É claro que ofereci levar algumas coisas para ela, mas ia demorar um pouquinho porque ia fazer um tour por Londres e talvez Escócia.

Foi uma viagem maravilhosa e aquela erva acompanhou-me ao longo do caminho. Quando cheguei em Paris, não sei porque, mas todos os brasileiros, e só os brasileiros, estavam tendo suas bagagens revistadas. "Caralho, agora danou-se como vou explicar que essa erva não é aquela erva. Eles não vão acreditar" pensei. Mas como bom-alguma-coisa que sou, deixei pra lá e coloquei as malas para revista, com uma cara de indignado, não entendia um bom dia em francês, mas sabia que eles entenderiam a minha. No fundo, eu tava cagado. Imagina, sair de Alvorada (é uma cidade perto de Porto Alegre, não se se esta no mapa) e ser deportado por levar erva-mate.

A minha mala passou e eles nem prestaram atenção na minha existência. Ufa. Fui  correndo para o banheiro (não entendeu, deixa pra lá) e depois fui pegar o trem para o centro. Fiquei maravilhado quando cheguei ao centro e com as ervas.

Dois dias depois, fui para Londres. Dessa vez foi o contrário. Eu estava calmo, até chegar o momento da imigração: fiquei uns 15 minutos, mas pareceram uma duas horas, respondendo aquelas perguntas em inglês. Até hoje, não entendo como eu consegui respondê-las. Passei pela imigração, eu e a Erva. Ela acompanhou-me em Bath, em Edimburgo e Inverness.

Então estava chegando perto ao destino final: Dublin. Uma confusão para conseguir ir até lá, mas no final, conseguimos dar um jeito. Pegamos um ônibus, de Edimburgo para Glasgow. De Glasgow até a barca; atravessamos de barca e chegamos na Irlanda do Norte, em Belfast; De lá, pegamos outro ônibus, e então finalmente chegamos em Dublin: eu e a erva.

Três dias depois, despedi-me dela e voltei para o Brasil. Bela companheira de viagem e o interessante foi, passou tão rápido,  que  nem tivemos tempo para  tomar um chimarrão, tchê.

domingo, 29 de janeiro de 2012

sobre acordar com ressaca sem beber

acordo com uma ressaca e um gosto de guarda-chuva molhado na boca, como se eu tivesse bebido e fumado tudo a noite anterior. mas não, dessa vez não. estava tudo programado para sair, mas algumas coias não deram certos e ao invés de encher a cara preferi por ficar em casa. bom menino.

o problema é que de nada adiantou, a cabeça faiscando de pensamentos e ideias, os olhos vidrados nos seriados americanos e sono desistiu de mim. passava das 5h horas, quando encontrei o sono perdido na madrugada. talvez, os meu sono estivesse perdido nos pubs esperando que eu chegasse, esperando que eu fosse encontrá-lo. nada disso apenas desencontros, como tantos na vida.

acordo desse jeito ressacado sem beber, meio sonolento sem vontade de levantar. por outro lado, meus vícios pularam da cama, tão logo despertei e buscavam nas memórias o gosto da cerveja e as escritas retas dos meu preferidos autores. não, mas dessa vez não com o chato (o saramago é um chato), voltei minhas leituras para algo mais sujo e humano. não nego sou fã dos ver podres e cansados do velho safado. Charles Bukowski.

acordei com uma ressaca sem ter bebido, com uma vontade de viver o que não tenho vivido. enfim, acordei como uma intensidade magnética que quer absorver tudo, daqueles que tem fome e sede de tudo. Vasculhei nas versos tortos e achei um velho conhecido:

I don't know how many bottles of beer
I have consumed while waiting for things
to get better

também não sei, também não tenho resposta para essa indagação, mas sei que amanhã será um novo dia. não vou acordar com ressaca sem ter bebido ou com sono por ter ficado em casa. amanhã vou acordar podre de cansaço e da sujeira do mundo. hoje vou embriagar-me dessa cerveja barata e sujar-me as deliciosas tentações da vida. espero uma única coisa, que meu anjo não esteja de folga.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

saramago é um chato

o saramago disse em entrevista certa, que o escritor tinha que ser um pensimista. não lembro de mais nada da entrevista. só deste momento. gosto do saramago, gosto dos seus escritos, do jeito como as palavras aparecem em seus romances. não leio saramago, eu assisto a uma valsa em seus romances, porque as palavras não estão juntas, elas estão dançando, no ritmo certo da música.

é claro que eu o admiro, mas quando ele falou aquela frase, meus olhos baixaram. eu que sempre me vi um dom casmurro, via na figura do escritor um dom quixote. um guerreiro que luta contras as injustiças e leva esperanças as pessoas. embora meu herói seja barroco minha concepção de escritor é romântica. por conta disso, aquele pensimismo me doeu.

e foi como um rompimento. eu continuei lendo saramago, mas separei o homem do artista. é que para mim, eu leitor ingênuo, vejo na literatura a esperança de um mundo melhor. mesmo sabendo que ela já foi usada como propagação do poder, de ambos os lados; que ela já foi usada para manipular pensamentos de esquerda e de direita, mas ela é feita por homens e prefiro pensar que o escritor não é um pensimista, que ele é um chato. que acha que sabe das coisas e se perde em seus textos. e sem perceber, lhe dá mais vida que a que possui.


mas a própria literatura resolve a questão. você escreve sobre a dúvida entre um emprego e outro e alguém interpreta sobre o amor. sim essa é a literatura, tão imprevisível quanto os corações humanos. mesmo o saramago, com todo o seu pensimismo trouxe esperança para muitos, mostrou uma outra visão de ver as coisas; inspirou escritores, dando-lhes  esperança que poderiam escrever algo de bom ( e alguns conseguiram), que uma historia poderia ser reescrita, e pode.

o saramago, mesmo  morto,  mesmo sendo chato e pensimista continua sendo, para mim,  um grande escritor. ele é chato, sua literatura não.

domingo, 22 de janeiro de 2012

um vazio que dói

Então você acorda um dia e percebe que nada mudou
O dia de ontem é igual ao dia de hoje
e será igual ao dia de amanhã,
exceto por uma coisa que você tem no peito, que cresce a cada dia
e a cada dia se torna mais forte

Você sabe que sempre existiu, mas não ligava, não incomodava,
mas então você acorda um dia e sente algo,
os anos passam e cada dia você sente um pouco mais,
começa a doer;
procura um médico, mas ele não sabe o que é,
receita remédios que não funcionam
você muda hábitos, para com os vícios,
volta com os hábitos, volta com os vícios
nada muda.

Nada muda,
Exceto aquela coisa no seu peito, que dói,
você procura especialistas e não encontra respostas.
Investigam você completamente e lhe
dizem apenas que não há nada.
Vocẽ não tem nada.

Não há nada em seu peito,
não há nada em seu coração
só um vazio que dói.

domingo, 6 de novembro de 2011

Esse mundo mágico


Uma das coisas que sei sobre mim é que realmente gosto de ler. Não sou muito de seguir normas ou fazer exercícios estruturados, mas a leitura é algo que me atrai, me fascina, me encanta. Gosto mesmo é de esquecer do tempo no meio de aventuras ou conflitos existênciais dos heróis. Em terras de James Joyce, fica um pouco difícil achar obras em língua portuguesa. O lado positivo é que você se atreve a ler em inglês e isso deve ajudar em alguma coisa no seu contato com a língua.

Já comcei centenas de livros escritos em inglês, mas como demoro muito para ler, porque há estruturas e palavras desconhecidas, acabo deixando de lado o livro e começando outro. Há algumas semanas, resolvi ler textos mais simples, aqueles com Stage 1, stage 2, os quais possuem estruturas e vocabulário adequado ao seu nível de inglês.

O legal desses livros é que você consegue terminá-los rapidinho e sua confiança na leitura aumenta e você pode passar para o estágio seguinte até que consiga ler tranquilamente obras mais complexas. É o processo de aquisição de língua porque infelizmente não dá para sair lendo Bukowski, Dickens ou Connan Doyle de primeira.

E é isso que venho percebendo, desde que comecei a ler esses livros. Foi um reencontro com um amor antigo: a leitura. É como se eu tivesse aprendendo as letras, as frases, sentenças, metáforas, ironias enfim todo aquele conjunto da língua escrita novamente. E tenho tido boas surpresas. Uma delas é perceber, que mesmo com estruturas tão simples, as palavras conseguem fazer a gente ir tão longe. Bem, acho que é isso que faz da leitura um mundo mágico. Não é ?

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Por que os (meus) textos não nascem?


No sábado após a festa de Halloween, antes de dormir, naquele estado em que precisa-se dormir, mas  quer prolongar a noite, iniciamos uma conversa sobre inspiração criar, especificamente para pintar, escrever e fotografar. Eu dizia que não tinha vontade de fotografar mais, que as vezes, quando pegava a câmera fotográfica na mão, tinha até um sentimento de repulsa. Sem explicação. Contraditoriamente, eu estava em paz com a escrita e cheio de ideias e com vontade de escrever. Até no gênero do poema tenho me aventurado, algo que eu havia esquecido por completo. Mas fui dormir com a sensação de que algo não estava certo.

No dia seguinte, fui olhar as publicações no blog. Percebi que a frequência com que tenho publicado não esta correspondente com o tamanho da inspiração que tenho vivenciado. Não vou dizer que tenho escrito com menos frequência do que a almejada por falta de inspiração. Após duas semanas trabalhando no Dublin Contemporary (exposição de arte contemporânea em Dublin), as ideias brotam uma atrás da outra.  A frequência com que tenho assistidos a filmes no cinema também contribuem para que a safra de ideias seja boa. 

Na semana passada por exemplo, enquanto espera para assistir um filme, fiz uma lista de ideias para futuros textos, naqueles vinte minutos surgiram mais de vinte diferentes ideias. O problema é que os textos não foram escritos.

A primeira desculpa que ocorre nesses casos é responsabilizar a falta de tempo por não ter realizado uma tarefa desejada. Vou dizer que também não é o caso. Embora estivesse realmente ocupado durante umas nove horas, poderia ter sentado e escrito no período na noite. Mas isso não aconteceu. E não vejo que seja falta de tempo.

Fui dormir com a dúvida e comecei a semana com ela. Por que mesmo com a inspiração os textos não ganham vida no papel, da mesma maneira que amadurecem em minha mente? Por que os textos não nascem? Será que não estão maduros suficientes ou trata-se de uma questão psicológica, uma reação inconsciente?  

Penso que há relação entre inspiração e criação, mas há relação entre inspiração e produção? Então lembrei uma frase do Einstein, na qual ele dizia que a fórmula do sucesso 10% era inspiração e 90% transpiração. Talvez o que eu esteja sentindo falta seja daqueles 90% que o Einstein falava. 

No meio dessa reflexão, ouço uma voz interna que diz "vai trabalhar vagabundo".


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma ideia com Bukowski

Esses dias estava na biblioteca procurando algo diferente para ler;. Fiquei um tempo por lá, vagando entra as estantes, esperando que um Shakeaspeare, Fitzgerald, Hemingway um Yeats me chamasse para bater um papo; ignorando por todos alguém embreagado e fedido, chamou a minha atenção. Não foi um "Oi tudo bem? quer conversar?" foi mais algo do tipo "psiu e ai me paga um trago". Não tinha grana, falei que também estava na merda, trocamos mais umas palavras e saimos dali.

Oral bolas não era um poeta como o Yeats, mas vai lá o Bukowski saber ser especial também. Há um que de fracassado que me atrai; aquela descrição podres de lugares imundos; aquele submundo sem cor de uma verdade que dói e nem por isso sem poesia. Sai da biblioteca com ele e na fila do supermercado, nem pensei duas vezes, abri o livro e comecei a ler o "novos poemas - livro 2". 


Só conhecia o Bukowski dos contos e de romance, mas nesse primeiro contato com a poesia dele, penso que ele consegue ser ainda mais humano escrevendo poesia; eu disse fracassado acima, mas acho que não é isso; é que com Bukowski a vida é o que ela é, um dia após outro, alguns momentos bons outros nem tantos; mas e daí que você queria ser presidente da república e virou professor. Ninguém mandou estudar.

O fato é que para o Bukowski tanto faz se você é um cara rico ou um cara fudido, tudo é a mesma m* mesmo e ele não esta nem ai, desde que ainda tenha vinho ou cerveja para beber.

domingo, 23 de outubro de 2011

Fragmento de Santinha



Guilhermino trabalhava como estagiário em um escritório. Pagavam-lhe bem: tinha comida e plano de saúde. De vez em quando, Ele e Santinha saiam com os amigos. Voltavam felizes para casa e faziam amor. Em uma dessas noites, ele plantara sementes no ventre da esposa. A vida que ela sempre sonhara virara realidade: a princesa tinha encontrado o seu príncipe.

Na volta do ginecologista Santinha era só alegria acabara de descobrir que seria mãe.  Nada fora comentado com o marido. Ela queria fazer lhe uma surpresa. De repente um sentimento melacólico lhe invadiu a alma. Pensava naquele momento eterno em que o tempo havia parado. O tempo é traiçoeiro; ele não para. O que lhe restou agora era a lembrança acompanhada de uma agonia e da tristeza de não ter confessado o amor com palavras, com beijos e caricias. Parecia novamente, final da tarde de domingo; quando todos os pensamentos giram em torno de não ter alguém para ir ao cinema, para caminhar no parque de mãos dadas; sentiu-se única, especial, mas acima de tudo sentia-se só.

Lembrava que muito chorara por não amar ninguém; agora por amar alguém e não sentir correspondida. Em todo o caso a solidão não abandona uma alma carente; é sempre ela que está ao nosso lado nos momentos angustiantes, mas parece que a sua presença e marcante em locais lotados de pessoas. Como naquela festa de um de seus amigos. Estavam conversando, alguns bebiam. Santinha não. A bebida não lhe agradava muito. Acreditava que o alcool transformava a vida moderna em barroca.

Entre tantas conversas sempre se prendia em seus pensamentos e sentia-se só. A conversa era apenas um ato sujo de soltar palavras e não uma troca de experiências, declarações de sentimentos como pensava. Nesses devaneios de solidão procurava sonhar; sonhar com uma outra vida, com uma vida feliz. E isso lhe fazia um bem, mas era como uma droga: nada era real. Não havia esforço pessoal para que isso tornar-se real. Viajava pelo mundo, conhecia pessoas interessantes, tinha amantes, fazia revoluções, lançava livros, ajudava os outros e de repente alguém lhe chamava. Ao seu redor, o salão triste com pessoas tristes estava diante de seus olhos. Isso lhe dava medo, um temor de que um dia não voltasse ou ainda pior: que fizesse parte do acúmulo de hipocrisia e tristeza que era o mundo em sua volta. As vezes pensava em se matar; tomar um coquetel de comprimidos; cortar os pulsos ou se atirar de um prédio.

Voltou seus pensamentos para o presente e não soube ao certo explicar o que estava acontecendo, pois se tudo está tão diferente; não soube o que houve, mas não pensava mais na morte. Seus devaneios, pensamentos ganharam forças e talvez um dia tornassem reais. Talvez fosse Guilhermino. Lembrava dele e neste instante seus olhos foram inundados por lágrimas que escorriam pelo seu rosto como uma linda cachoeira. Ia ser mãe e seus medos faziam parte de um passado que certamente retornaria no futuro, mais uma vez. Quando finalmente estaria preparada para enfrentá-lo se isso acontecesse. Enfrentaria todos os medos que a sua solidão criara, mas agora ela não estava mais só não precisava temer isso. Chegou em casa e foi preparar a janta para Guilhermino. Enquanto isso no escritório, ele estava sendo demitido.

domingo, 9 de outubro de 2011

Carta do Hélio: conselhos sobre medo e o tempo


Dos livros que trouxe na mochila, nenhum deles fazia parte dos livros de literatura que eu mais gostava. No momento, fiz um esforço tremendo para deixá-los no Brasi. Busquei ser prático, trouxe apenas alguns livros de inglês, guias de viagem e de fotografia. Os livros de literatura, após a chegada em Dublin seria da literatura irlandesa, britânica ou americana. Seria livros em inglês.

No entanto, trouxe um que, embora não fosse um guia de viagem, narrava uma jornada incrível. Por um motivo ou por outro, resolvi trazer esse livro comigo. Trata-se do Paratii: entre dois pólos, livro de Amyr Klink relatando as duas viagens: uma referente a que ele realizou até o sul da Antártica; a outra, é a da construção do Paratti. A forma narrativa em que o Amyr contas as suas aventuras me encantam tanto. Ficou motivado e tentado a construir um barco e viajar por esse mundo. Bem, há outras formas de viajar. E uma delas é através da leitura.

O livro é maravilhoso, cheio de encantos e de passagens inesqueciveis. E de uma sabedoria mundana ou seria humana, que assusta de tão simples. Além disso é inspirador. Para quem já viajou, se vê nas aventuras do Amyr, com os medos, as surpresas que uma viagem nos reserva; para que sonha em viajar, encontra a coragem para correr atrás do seu sonho. Eu já tinha começado o meu sonho, quando terminei de ler o livro. Foi o meu grande companheiro nas horas de "ansiedade". Terminei de ler o Paratti no escritório da imigração irlandesa, enquanto esperava a resposta sobre o meu visto para estudar um ano em solos irlandês.

Mas voltemos ao livro. Tem uma parte dele que me encanta mais do que as outras, curiosamente não foi escrita pelo Amyr e sim por um amigo seu chamado Hélio. Na carta, o Hélio pede desculpas ao Amyr por chamá-lo de amigo. Ele explica que "apesar de bastante termos conversado, e sempre, de minha parte pelo menos, sentindo uma grande empatia, não cheguei na sua intimidade", mas como se conhecem e compartilham coisas resolveu chama-lo assim. O Hélio tentar dar alguns conselhos para o Amyr. Li a carta como se eu fosse o destinatário, e talvez por isso eu tenhta tanta estima por ela. Vez que outra ainda a releio, pois é uma vonta de inspiração para mim. A começar pelo nome do Blog. Enquanto o Hélio explica porque resolveu chamar o Amyr de amigo ele conclui com o seguinte trecho: "A vida é infinita, e há muito por viver. Live and Let live. Um dia as coisas acontecem!".

Mas além de inspiração, guardo também um trecho sobre o medo que, no momento tiveram muito significado para mim e que ainda merecem uma crônica ao assunto. O Amyr admitiu em outros livros e entrevistas que sim tem medo. Muitos olham surpreso quando ele admite que tem medo. Penso que só quem tem medo, pode desenvolver a coragem. Aquele que nada teme, ao meu ver, não se trata de um corajoso, é outra coisa, mas não coragem. O meu pensamento sobre medo ainda estava / esta em desenvolvimento, mas as  palavras do Hélio atingiram a minha alma, pois ele escreve algo parecido. O Hélio escreve "Medo, meu irmão, a gente passa por isso", fala que o medo é inevitável e para ele o "grande corajoso é aquele que tem plena consciência de seu medo, e, sendo esperto,sabe admnistrá-lo". E conclui, "medo é inevitável e que só quem sabe de si sabe vencê-lo".  Tirei dessa frase uma outra reflexão, que as vezes não é o ato de coragem que nos leva a alcançar os nossos sonhos, mas o medo que temos em realiza-los. O medo é tão grande, tão sufocante que nos obriga a recorrermos a coragem e enfrentá-lo.

A outra passagem trata-se do tempo. Por muito tempo, guardei só essa passagem da carta: "Um dia, meu amigo Amir, eu descobri que tinha todo o tempo do mundo. Foi um dia que eu joguei a âncora (...) e me apercebi que ali eu poderia ficar um segundo ou um ano. Foi o dia que eu percebi que era o soberano do meu TEMPO". Até a leitura disso, eu não tinha percebido, que cada um de nós podemos ser os senhores do nosso tempo. É que em linhas gerais, O Hélio diz pro Amyr ficar o tempo que tiver que ficar no mar, que lá não há relógio, cronogramas ou calendários. É ele e o mar. Eu guardei aquilo e tento lembrar-me sempre, porque percebo que cada um é senhor do seu tempo. Se eu precisar de mais tempo para fazer algo ou simplesmente não quiser faze-lo, eu posso. No fundo não há nada que nos obrigue a fazer isso aquilo, além de nós mesmos. Acho mesmo, que nos cobramos muito por tarefas, por tempo; para fazer isso e aquilo, e esquecemos às vezes de parar, como o Hélio sugere. Esquecemos de parar e contemplar o oceano que esta a nossa frente, atrás, ao redor da gente. Podemos fazer isso, desde que a gente se permita, a final somos autor de nossa vida, o personagem principal.

O Hélio escreveu a carta antes do Amyr partir. E no livro o Amyr publica a carta como uma introdução do Paratti. O livro é do Amyr Klink, fantástico, mas para mim o Hélio roubou a cena com essa carta.

sábado, 30 de outubro de 2010

O mundo esta doente I

O menino acordou durante a noite com um Grito. O pai, preocupado, foi até o quarto do garoto.

- O que foi filho?
- Pai, eu acho que o mundo esta doente.
- Doente? Por que você diz isso meu filho.
- Ouvi um homem la na escola dizendo que tava feliz por fora, mas que por dentro ele tava triste, que doia muito. Na TV também tem sempre alguém triste, escuto as conversas das pessoas reclamando de dor. Tem sempre alguém chorando, triste. É doença. Não quero ficar doente.
- Aih filho, as pessoas choram mas não quer dizer que elas estejam doentes ou que estejam tristes. A gente se emociana com algo daí as lágrimas correm. É até bom chorar, limpa por dentro o coração e a alma da gente.
- Ah pai não sei. Acho estranho chorar se não dói. Não sei, a mãe não acha isso, ela acha que é doença também e que vai passar.
- Como assim Gui?
- Ah, pai é que ontem veio aqui em casa uma amiga da mamãe e chorava muito. Acho que ela tava sentindo muita dor. E a mãe disse que as coisas eram assim mesmo que ia passar. Ahhhhhhhhhhhhhhh
- O que foi Gui?
- Ah lembrei, a mãe falou mais uma coisa. Ela disse que as pessoas iam embora da nossa vida as vezes. Que tudo ia passar. Que todo mundo sente saudade de quem se gosta, mas é importante seguir em frente.
O menino parou, e com os olhos com lágrimas falou:
- Pai, eu nao quero ficar doente também. To com medo. Não quero que você ou mamãe me deixem. Eu vou chorar, ficar triste e ter esse negócio chamado saudade.

domingo, 24 de outubro de 2010

É preciso vencer esse encaramujamento

Comecei a ler O Encontro Marcado esses dias e desde então estou para postar a "epígrafe" do livro. Hoje resolvi faze-lo:
“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.” (De uma carta de Hélio Pellegrino.)
Pesquisando sobre o trecho acima descobri, que tem uma segunda parte, ou melhor, uma reformulação feita por Hélio Pellegrino, bem mais humorada, a qual transcrevo como esta no site releituras:
"Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!"

domingo, 4 de julho de 2010

A descoberta do Mundo

Escrevi recentemente que é engraçado como as coisas acontecem. Ainda não postei aqui esse texto, mas deveria. É que novamente as coisas acontecem quase que por acaso, ou seria mesmo por acaso.

Hoje fui visitar uma amiga e deparei-me com um livro que desejei. A vontade foi tamanha que a ousadia venceu a minha timidez  e trouxe o livro para casa.

Não deveria te-lo feito. Tenho que finalizar um trabalho de conclusão e sei que este livro me trará problemas. Quero le-lo por completo, mais do que isso acho que quero vivencia-lo por um tempo.

Trata-se da coletânea de crônicas da Clarice Lispector,  A Descoberta do Mundo.  Quano o peguei, abri em um página que falava do escrever, não consegui ler na hora. Não quis ser rude na casa dos outros.

Já em casa, deliciei-me com esta crônica  e com mais outra, e outra e o mundo voi se abrindo para mim. Algumas frases pareciam ser feitas para mim outras, descrevendo-me. É estranho como podemos achar afinidades com os mortos né? É o poder da literatura, das artes.

Bem, deixe estar… devo voltar ao livro, mas de tempo em tempo quero dividir um pouco as coisas com vocês. É que preciso compartilhar tantas ideias, tantas reflexoes.

Carlos Carreiro

domingo, 13 de junho de 2010

Amadurecer é passar de Álvaro campos a Ricardo Reis?

Tem muita coisa que eu pensava que sabia e que entendia na faculdade, talvez até soubesse, mas algumas coisas parecem diferente para mim agora. Por exemplo, sempre pensei que os heterônimos de Fernando Pessoa eram uma maneira puramente estética que o poeta havia encontrado para expressar mais claramente uma modernidade que surgia com múltiplas perspectivas; expressa algo que a sociedade em seu modelo estrutural, binário e de herança positivista ainda não estava preparada, ou simplesmente, não conseguia entender. Hoje quando um amiga minha me perguntou “será que amadurecer é passar de Álvaro de Campos a Ricardo Reis” eu percebi que algo tinha mudado.

Passado os anos, depois que eu deixei os livros de crítica literária nas estantes  e ter andado de bar em bar, em busca de vida, em busca de algo em mim, penso que os critica heterônimos, em sentido estético, tenham uma função mais universal do que apenas aquele pensamento datado. Penso que o conjunto deles ou os principais sejam mais para representar o homem, o eu em diferentes fases da vida, em diferentes contextos. O “eu” sem valor é ou são os “eus”.

Talvez venha daí, desses “eus”, a minha insistência em ver Pessoas nos romances de Clarice. Depois de ler Pessoa, passei a ler Clarice sempre como se ela estivesse completando-o ou continuando sua obra. Nunca entendi direito essa relação que eu estabelecia, mas o momento agora também não é para refletir sobre ela, mas sim sobre os “eus” de Fernando.

Entendo, esses heterônimos de Pessoa como uma tentativa incansável de gritar para o mundo as aflições humanas, entre elas a de que “eu existo”. E como Benveniste já disse, o eus ó exerce valor no ato da enunciação, e que o sujeito só existe a partir do momento que ele se enuncia na linguagem, enfim, quando ele diz “eu”Então como ser alguém definido e estabelecido, se esse eu é inconstante e mutável? Daí que vem os heterônimos para conseguir dar vazão a tantos papéis em nossa vida.

Álvares de Campos, neste aspecto, pode ser visto com um “eu” que esta preso ao sentido estético da linguagem e grita ao mundo sua rebeldia, em um complexidade de momentos e estilos que vai mudando ao longo das fases de sua poesia. Mas talvez esconda do mundo, seus verdadeiros desejos. Sua obra pede ao mundo que entenda sua obra, que lhe deem atenção. Busca mudanças nos estilo porque carece de atenção; sua raiva nada mais é que o adolescente gritando e pedindo, do seu jeito, amor e atenção.

Não vejo Ricardo Reis tão diferente disso, mas penso que há nele uma consciência mais presente do fim da vida. Há nele o início da aceitação. Mas há, de certa maneira, o mesmo homem ou jovem Álvares, mas com uma linguagem mais rebuscada, mais formal, mas ainda assim vejo nele, uma preocupação em ser aceito por uma sociedade, por um tempo, por alguém; uma busca por aceitação que não vejo em um outro heterônimo, o mestre.

Há quem diga que quando envelhecemos voltamos a ser criança novamente, talvez exista alguma verdade nesse pensamento popular. Talvez, seja essa a razão que leva os outros a considerarem mestre, essa relação presente da criança e do velho. Não entendo ao certo se é porque isso o faz mais ingênuo ou se é porque essa ingenuidade o torna sábio. Mas vejo em sua poesia algo os outros almejam: liberdade de ser. Caeiro aceita quem ele é, aceita o mundo, aceita as coisas em sua complexidade e simplicidade; ele não se preocupa em ser um “eu”, algo fixo e imutável; ele aceita ser ateu e dizer que deus existe, ser velho e brincar como criança, ser alegre e ser triste. Aceita suas dúvidas, suas arrogantes verdades, o que ele não aceita é não ser.

Há Álvares, Ricardos, Pessoas, Pedros, Marias em todos nós; velhos, jovens, crianças, só precisamos abrir os olhos para que possamos vê-los. Penso hoje que os heterônimos não são de Fernando Pessoa, mas fazem parte dele. Caeiro, de uma certa maneira, tenta ensinar isso aos outros. É mais ou menos como Clarice escreveu “Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo o entendimento”.

Carlos Carreiro

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Literatura, movimento e álcool

Estou aguardando o embarque para Montevidéu. Enquanto aguardo o vôo, fiquei a pensar sobre o ato de escrever e alguns nomes vieram-me a mente e as suas motivações.

Há aqueles que ficam motivados bêbados… Nessa categoria devem estar a maioria dos escritores. Lembro inicialmente de um Bukowski, Dostoievski, Dickens para citar uns. Nessa de motivação lembrei dos que são motivados pelas criações alheias: de cara lembro do nosso querido Machado de Assis, que dopava de Shakeaspere, Balzac para escrever cada vez mais e melhor e na área interncional de um de nuestros hermano, um gaucho chamdo Borges. Suas brincadeiras literárrias com as enciclopedias fez com que um cego mostrassse a luz a muitos leitores.

Particularmente, vejo que minha motivação vem quando sinto que estou em movimento, isto é, preciso viajar  para escrever. Gosto do espaço do aeroporto, do avião, de ônibus, trem, do ar do movimento do meio que me motiva a movimentar algumas letras.

Tento me lembrar de escritoressnapshot-6 com essa motivação e, como não sei, não lembro, sinto-me só. Resta-me apenas beber uma cerveja e juntar-me a Bukowski, Dostoievski...

Tin-tin

Carlos Ca rreiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A vida íntima de Laura

 

Recebi um e-mail de uma amiga divulgando  a 7ª Mostra Anual de Teatro Universitário UFRGS. Como ocorre nos anos anteriores  as peças ocorrerão sempre às 12h20min e às 19h30.

A retomada dos trabalhos iniciará com a peça, A vida íntima de Laura. E poderá ser apreciada em todas as quartas do mês de setembro, nos horários divulgados acima. O local será na sala QORPO SANTO (C. Central UFRGS/ Av. Paulo Gama s/n).  Ah, e para quem não sabe a entrada é franca, isso mesmo, de grátis.

É uma excelente oportunidade para assistirmos um espetáculo com um belo texto.  Abaixo segue maiores informações sobre a peça.

Sinopse:
O espetáculo é uma livre adaptação do conto de Clarice Lispector. A intimidade de uma galinha é exposta por uma irreverente apresentadora de Televisão.

Durante o espetáculo o público é levado a uma bela viagem, onde somos convidados a entrar na sua vida em  diferentes empreitadas do cotidiano.

O espetáculo traz uma reflexão sobre os veículos da mídia e sua influência no cotidiano das pessoas, sobretudo no universo feminino. Chama a atenção para as coisas essenciais e propõe um retorno à valorização da vida e das relações afetivas.

Ficha Técnica:
Texto: CLARICE LISPECTOR
Elenco: MILA MARIZ
Direção: CIÇA RECKZIEGEL
Coreografia: SUZANE WEBER
Trabalho originado na disciplina de Atuação IV, sob orientação de CIÇA RECKZIEGEL
Fotos: EDUARDO MONTELLI
Duração: 40min

Quem quiser saber mais informações sobre outros espetáculos, ou sobre o projeto basta acessar o site do Instituto de Artes da UFGRS.

Um bom espetáculo a todos.

Abs,
Carlos Carreiro

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Carta ao pai: algumas notas (i)

Ontem, comecei a leitura de "Carta ao ao pai", Franz Kafka. Estou no início, mas já percebi que algo esteticamente diferente do que O Castelo, O Processo ou A Metamorfose. A diferença é em grande parte compreensível, dendo em vista que o gênero também muda e nesse aspecto se faz necessário também a mudança em relação ao meio, se pensarmos em uma perspectiva discursiva  a partir de Bakhtin.

O interessante é que ao usar a primeira pessoa, Kafka causa uma sensação de força do escritor e nao do escrito. A linguagem, ora usada para criar poesia e causar estranhamento artístico, agora ganha uma força para ferir e atacar. Até o momento da leitura, me parece que Kafka busca culpar o pai pelos seus demônios e fracassos,  e dessa maneira espera conseguir a paz consigo mesmo. 

O interessante é que me senti um pouco Kafka ao perceber o quanto devemos aos nossos pais: seja isso em aspécto positivo ou negativo; quanto influência deles temos em nossas ações? quanto de nossos medos devemos a eles? quanto de nossa ousadia herdamos deles? E até quando ficaremos presos a eles ao ponto de impedir e traçar o nosso próprio caminho. 

A leitura apenas começou.  

quarta-feira, 7 de maio de 2008

versos...

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo;/ Teadoro, Teodora.
Manuel Bandeira

segunda-feira, 25 de junho de 2007

blogs interessantes

Em inicio de pesquisa sobre os blogs tenho descoberto algumas coisas facinantes na rede. Hoje trago algumas perolas para vocês.

Começo com o Lire est un plaisir - Journal d'un chroniqueur littéraire. Um blog com entrevistas de autores, resenhas de livros e fotos interessantíssimas de autores e obras. É blog pelo formato, mas pelo conteúdo mereceria o nome de Portal. O único inconveniente é que o site é em francês.

Em português, temos o Blog (æ)! que destina às pessoas que gostam de quadrinhos, mas que não tem a necessidade de ter a revista em mãos. A qualidade dos quadrinhos apresentadas é de primeira, e além de divulgar o produto nacional, os comentários contam uma história a parte. Vale a pena dar uma lida.

Para quem gosta de poesia a dica vai para o Arte em Toda Parte. Embora o nome se refira a arte de maneira generalizada, o que se vê no blog é basicamente arte literária, especificamente poesia, mas que dialoga com as fotografias e reproduções de quadros. Alguns maravilhosos. A expressão poética, embora muito sentimental, percebe-se uma preocupação pela forma. Como percebemos na poesia de Soslaio... abaixo:

,
virgulo a curva
divertida
do seu rosto


derrapo teus
olhos no sen
tido oposto

beijo o canto
do seu sorriso
de gosto sortido



depois saio... de soslaio,
invertido


Deixo outras novidades para depois.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Cartas de Dante i

Começo hoje um série de cartas para percorrer as aventuras de um homem apaixoanado através dos grandes casais da literatura.

Boa Leitura.

Carlos Carreiro

***

Beatriz,

Tenho o peito apertado; é uma sensação de amor presente. Eu lembro nessa dor nos tempos em que eu amava. Ah, essa tristeza gostosa que é amar. Meus olhos querem falar com o mundo e demonstrar tanta emoção; quero deixar as lágrimas rolarem pelo meu rosto. Nunca fui D. Juan, mas se os meu amores platônicos contassem eu ultrapassaria as conquistas daquele.


Mentira, tu sabes que até meus amores platônicos, meus sonhos românticos foram poucos. Vivo muito mais dos amores da literatura e de poucas emoções que vivi, do que de amores de verdade. Mas nas raras vezes, em que sinto esse aperto de paixão por ti; de querer estar próximo, de conversar conversar contigo, de sentir a tua presença. Ah, é tão gostoso. Ficar sem fome porque agora quem comanda o corpo não é o cérebro, mas sim o coração. Sorrir por estar vivo e sentindo essa tristeza que é te amar.

Como é incoerente o ser enamorado. A dor que ele sente é a mesma alegria que lhe motiva a viver. Ah, sofrer de amor... Ah, como é bom estar assim. Já enfrentei o inferno, o purgatório por ti meu anjo e se precisar, faço tudo novamente. Ou caso queira, invento uma nova jornada pelo teu amor. Mas lhe digo, de todos os círculos do inferno, de todas as privações do purgatório não há nenhuma tão cruel do que estar longe de ti.

Por isso vou ao teu encontro, sofro agora como Riobaldo sofreu no sertão aquele amor que tinha por Diadorim e que não podia ter, só porque eu me iludo na esperança de que tenho a certeza de que em teus braços serei feliz como um Romeu. Saio hoje eu teu encontro, como outrora saiu aquele cavalheiro da triste figura em busca de seu amor. E, a cada parada te escreverei as minhas perdas e as minhas fortunas, compartilharei as minhas aventuras e os meus sentimentos, pois minha Julieta mesmo que não estejas do meu lado, sentirei a tua presença quando te escrever.

Dante

domingo, 6 de agosto de 2006

O cara legal

O Butuca era o cara mais legal da turma, tomava altos tragos com a galera, sempre conseguia o melhor baseado e até descolava um pó pra nós de vez em quando. Sempre conseguia as mina mais tri e todo findi tava com uma diferente. Eu tinha dez anos e quando crescesse mais queria ser que nem o Butuca, o cara era muito legal. Teve uma vez que ele até deixou eu dar uma pitada num baseado. Sempre consegui uns troco pra gente comprar uns crivo. Pô! o cara era legal a beça. Enganava os porco direitinho, nunca conseguiram pegar ele. A gente nunca sabia qual era a parada dele, mas ele era muito esperto. Tinha dezesseis anos e já ia ser pai de duas minas, mas é claro elas não sabia uma da outra, só nóis e a galera do Butuca é que sabia.

Teve uma vez que apareceu na banda, um troxa que quis dar uma de pai pra cima da gente. O tio começou o maior sermão pra cima da gente, dizendo que a gente não podia fumar, que era muito guri. Mandei ele se fudê. O tio não gostou e disse que ia chamar os porco. Báh! Quando o Butuca viu o tio falar em porco. Ele odiava porco e com toda razão os cara só aparecia na zona pra leva um de nós, dizendo que a gente tinha metido alguém, viagem só viagem. A moral é que quando a viatura aparecia lá é porque eles tava sem o barato e via rouba da gente e sempre a mesma história, dessa vez a gente libera vocês mas da próxima grade. As vezes, só por diversão, eles davam uns piteco na gente e manda nós cala a boca. Mas naquele dia o Butuca não gostou de ouvir o tio fala assim, saiu do canto dele e veio pra cima do coroa, chegou junto, deu um encontrão pra abrir espaço e guindou um soco no nariz. Pronto o babaca tava sangrando, e ainda por cima gritou com o Butuca, chamou ele de marginal. O Butuca não era marginal, ele era um cara gente fina, um cara legal. Ouviu e não gostou, dei outra no tio e velho foi pro chão, daí o Butuca tirou o ferro e apontou pro babaca. Eu pensei que o Butuca ia apagar o velho ali mesmo, deu até pena de ver o tio se michando na calça, mas o Butuca só pra mostrar que era um cara legal deixou a gente dar uns chute nele. Bah vou muito legal. Eu dei um que chegou a quebrar uns dentes do velho. Dente mesmo, porque a dentadura já tinha voado longe, depois o Butuca tirou a grana do coroa e deu pra nós. Daí a gente foi comprar bebida pra galera. Não sei o que houve com o tio, quando a gente voltou ele não tava mais lá. A gente acha que ele fugiu de tanto medo, mas tem uns cara da banda que diz que o Butuca apagou ele. Mas é mentira, o Butuca era um cara legal.

Só que é foda, os cara legal morre cedo. Teve uma vez que o Butuca conseguiu um grana fudida e comprou um monte de pó. Deu a metade pra galera e a outra ele levou pra baia. O Butuca se chapou e quis mais, e mais. Não deu, o cara era legal mas morreu. Não agüentou o tranco, se foi. Eu até tive vontade de chorar, mas aprendi com o Butuca que homem não chora, só mulher e veado é que chora. A merda é que agora não tem mais o Butuca. Só ficou mané na galera, os cara não querem saber de beber, nem de curtir um barato. Os parceiro, os amigão do Butuca não aparece mais lá. Que foda, agora ninguém vai descola unzinho pra gente consegui uns crivo. A gente precisava mesmo era de um cara legal. Paciência, vamo te que se vira.