domingo, 6 de agosto de 2006

O cara legal

O Butuca era o cara mais legal da turma, tomava altos tragos com a galera, sempre conseguia o melhor baseado e até descolava um pó pra nós de vez em quando. Sempre conseguia as mina mais tri e todo findi tava com uma diferente. Eu tinha dez anos e quando crescesse mais queria ser que nem o Butuca, o cara era muito legal. Teve uma vez que ele até deixou eu dar uma pitada num baseado. Sempre consegui uns troco pra gente comprar uns crivo. Pô! o cara era legal a beça. Enganava os porco direitinho, nunca conseguiram pegar ele. A gente nunca sabia qual era a parada dele, mas ele era muito esperto. Tinha dezesseis anos e já ia ser pai de duas minas, mas é claro elas não sabia uma da outra, só nóis e a galera do Butuca é que sabia.

Teve uma vez que apareceu na banda, um troxa que quis dar uma de pai pra cima da gente. O tio começou o maior sermão pra cima da gente, dizendo que a gente não podia fumar, que era muito guri. Mandei ele se fudê. O tio não gostou e disse que ia chamar os porco. Báh! Quando o Butuca viu o tio falar em porco. Ele odiava porco e com toda razão os cara só aparecia na zona pra leva um de nós, dizendo que a gente tinha metido alguém, viagem só viagem. A moral é que quando a viatura aparecia lá é porque eles tava sem o barato e via rouba da gente e sempre a mesma história, dessa vez a gente libera vocês mas da próxima grade. As vezes, só por diversão, eles davam uns piteco na gente e manda nós cala a boca. Mas naquele dia o Butuca não gostou de ouvir o tio fala assim, saiu do canto dele e veio pra cima do coroa, chegou junto, deu um encontrão pra abrir espaço e guindou um soco no nariz. Pronto o babaca tava sangrando, e ainda por cima gritou com o Butuca, chamou ele de marginal. O Butuca não era marginal, ele era um cara gente fina, um cara legal. Ouviu e não gostou, dei outra no tio e velho foi pro chão, daí o Butuca tirou o ferro e apontou pro babaca. Eu pensei que o Butuca ia apagar o velho ali mesmo, deu até pena de ver o tio se michando na calça, mas o Butuca só pra mostrar que era um cara legal deixou a gente dar uns chute nele. Bah vou muito legal. Eu dei um que chegou a quebrar uns dentes do velho. Dente mesmo, porque a dentadura já tinha voado longe, depois o Butuca tirou a grana do coroa e deu pra nós. Daí a gente foi comprar bebida pra galera. Não sei o que houve com o tio, quando a gente voltou ele não tava mais lá. A gente acha que ele fugiu de tanto medo, mas tem uns cara da banda que diz que o Butuca apagou ele. Mas é mentira, o Butuca era um cara legal.

Só que é foda, os cara legal morre cedo. Teve uma vez que o Butuca conseguiu um grana fudida e comprou um monte de pó. Deu a metade pra galera e a outra ele levou pra baia. O Butuca se chapou e quis mais, e mais. Não deu, o cara era legal mas morreu. Não agüentou o tranco, se foi. Eu até tive vontade de chorar, mas aprendi com o Butuca que homem não chora, só mulher e veado é que chora. A merda é que agora não tem mais o Butuca. Só ficou mané na galera, os cara não querem saber de beber, nem de curtir um barato. Os parceiro, os amigão do Butuca não aparece mais lá. Que foda, agora ninguém vai descola unzinho pra gente consegui uns crivo. A gente precisava mesmo era de um cara legal. Paciência, vamo te que se vira.

Um comentário:

Anônimo disse...

Boa boa!

Parece até que foi uma entrevista com um moleque. Extremamente coloquial. Pra mais de metro.

Bom, muito bom.

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