sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

saramago é um chato

o saramago disse em entrevista certa, que o escritor tinha que ser um pensimista. não lembro de mais nada da entrevista. só deste momento. gosto do saramago, gosto dos seus escritos, do jeito como as palavras aparecem em seus romances. não leio saramago, eu assisto a uma valsa em seus romances, porque as palavras não estão juntas, elas estão dançando, no ritmo certo da música.

é claro que eu o admiro, mas quando ele falou aquela frase, meus olhos baixaram. eu que sempre me vi um dom casmurro, via na figura do escritor um dom quixote. um guerreiro que luta contras as injustiças e leva esperanças as pessoas. embora meu herói seja barroco minha concepção de escritor é romântica. por conta disso, aquele pensimismo me doeu.

e foi como um rompimento. eu continuei lendo saramago, mas separei o homem do artista. é que para mim, eu leitor ingênuo, vejo na literatura a esperança de um mundo melhor. mesmo sabendo que ela já foi usada como propagação do poder, de ambos os lados; que ela já foi usada para manipular pensamentos de esquerda e de direita, mas ela é feita por homens e prefiro pensar que o escritor não é um pensimista, que ele é um chato. que acha que sabe das coisas e se perde em seus textos. e sem perceber, lhe dá mais vida que a que possui.


mas a própria literatura resolve a questão. você escreve sobre a dúvida entre um emprego e outro e alguém interpreta sobre o amor. sim essa é a literatura, tão imprevisível quanto os corações humanos. mesmo o saramago, com todo o seu pensimismo trouxe esperança para muitos, mostrou uma outra visão de ver as coisas; inspirou escritores, dando-lhes  esperança que poderiam escrever algo de bom ( e alguns conseguiram), que uma historia poderia ser reescrita, e pode.

o saramago, mesmo  morto,  mesmo sendo chato e pensimista continua sendo, para mim,  um grande escritor. ele é chato, sua literatura não.

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu, que estou segura que só Pilar del Río lamentou mais a morte de Saramago do que eu, posso te afirmar que teu texto me comoveu, me inspirou, me alegrou até. Certa vez um escritor revelou que um escritor não pode ser ingênuo. Talvez a isso se refira o pessimismo de Saramago: ele não pode ser um quixote, mas quem sabe é um Sancho Pança, que se deixa levar, inicialmente por motivos nem tão nobres, mas que depois se vê envolto na atmosfera de encanto que a literatura nos dá. E ainda que ele creia que controla seus atos e que conhece suas motivações, o fato é que, ainda que tenha perdido a ingenuidade, não perdeu a capacidade de sonhar. ;) Vanessa.

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