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domingo, 23 de outubro de 2011

Fragmento de Santinha



Guilhermino trabalhava como estagiário em um escritório. Pagavam-lhe bem: tinha comida e plano de saúde. De vez em quando, Ele e Santinha saiam com os amigos. Voltavam felizes para casa e faziam amor. Em uma dessas noites, ele plantara sementes no ventre da esposa. A vida que ela sempre sonhara virara realidade: a princesa tinha encontrado o seu príncipe.

Na volta do ginecologista Santinha era só alegria acabara de descobrir que seria mãe.  Nada fora comentado com o marido. Ela queria fazer lhe uma surpresa. De repente um sentimento melacólico lhe invadiu a alma. Pensava naquele momento eterno em que o tempo havia parado. O tempo é traiçoeiro; ele não para. O que lhe restou agora era a lembrança acompanhada de uma agonia e da tristeza de não ter confessado o amor com palavras, com beijos e caricias. Parecia novamente, final da tarde de domingo; quando todos os pensamentos giram em torno de não ter alguém para ir ao cinema, para caminhar no parque de mãos dadas; sentiu-se única, especial, mas acima de tudo sentia-se só.

Lembrava que muito chorara por não amar ninguém; agora por amar alguém e não sentir correspondida. Em todo o caso a solidão não abandona uma alma carente; é sempre ela que está ao nosso lado nos momentos angustiantes, mas parece que a sua presença e marcante em locais lotados de pessoas. Como naquela festa de um de seus amigos. Estavam conversando, alguns bebiam. Santinha não. A bebida não lhe agradava muito. Acreditava que o alcool transformava a vida moderna em barroca.

Entre tantas conversas sempre se prendia em seus pensamentos e sentia-se só. A conversa era apenas um ato sujo de soltar palavras e não uma troca de experiências, declarações de sentimentos como pensava. Nesses devaneios de solidão procurava sonhar; sonhar com uma outra vida, com uma vida feliz. E isso lhe fazia um bem, mas era como uma droga: nada era real. Não havia esforço pessoal para que isso tornar-se real. Viajava pelo mundo, conhecia pessoas interessantes, tinha amantes, fazia revoluções, lançava livros, ajudava os outros e de repente alguém lhe chamava. Ao seu redor, o salão triste com pessoas tristes estava diante de seus olhos. Isso lhe dava medo, um temor de que um dia não voltasse ou ainda pior: que fizesse parte do acúmulo de hipocrisia e tristeza que era o mundo em sua volta. As vezes pensava em se matar; tomar um coquetel de comprimidos; cortar os pulsos ou se atirar de um prédio.

Voltou seus pensamentos para o presente e não soube ao certo explicar o que estava acontecendo, pois se tudo está tão diferente; não soube o que houve, mas não pensava mais na morte. Seus devaneios, pensamentos ganharam forças e talvez um dia tornassem reais. Talvez fosse Guilhermino. Lembrava dele e neste instante seus olhos foram inundados por lágrimas que escorriam pelo seu rosto como uma linda cachoeira. Ia ser mãe e seus medos faziam parte de um passado que certamente retornaria no futuro, mais uma vez. Quando finalmente estaria preparada para enfrentá-lo se isso acontecesse. Enfrentaria todos os medos que a sua solidão criara, mas agora ela não estava mais só não precisava temer isso. Chegou em casa e foi preparar a janta para Guilhermino. Enquanto isso no escritório, ele estava sendo demitido.