Boa leitura.
Carlos Carreiro
In dubio pro reo
I
Das profundezas de um poço nasci. Era noite de julho. Meu pai havia convidado minha mãe a irem ao cinema. Saíram, mas não foram ao cinema. Meu pai a levara para um local chamado poço. Lá me fizeram entre gemidos e sussurros; entre poças de suor e gozos de prazer.
Hoje dei-me ao luxo de pensar nessa história que mamãe sempre me contava. Ao lembrar-se disso ela chora, papai chora. Nos raros momentos de sossego, distante, no mundo em que vivo, penso neles. E hoje, reparando nessas colunas insólitas, as quais suportam o teto injusto do local onde vivo, dei me por refletir. Refletir nos acontecimentos passados, nos valores de minha vida.
Estou preso há dois anos. Motivo? Um crime que não lembro de ter cometido. Mas de qualquer maneira me condeno, assim como o júri o fez. Dizem que matei um homem, alias um menino, uma criança. Uma criança alegre que só sabia brincar com seus amigos e alegrar a vida de seus pais. Eu choro quando lembro essa tal criança, e entendo porque estou preso. Mas minha lucidez é limitada, ela não encontra respostas. Reflito, reflito e me aflito. Não consigo entender como pude matar uma criança, e levar à vida de meus pais tanta desgraça. Alias, não matei a criança. Não lembro. Estou ciente de que não sou louco ou assassino, mas o álcool que corrói o corpo, corrói a mente e a alma. Na noite em que o anjo da criança se encontrou com o demônio da bebida, eu cometi o delito e a matei. É o que dizem. Fui consagrado com o dom do esquecimento e condenado com a pena da culpa. Não a culpa dos homens, mas a culpa da alma, que não pára de me lembrar daquilo que não lembro. Minha pena é a dúvida. Assim tento viver, sem dormir, sem comer. Não há momento em que não me culpe, por não lembrar ao menos do rosto da criança que entreguei a Deus. Não entendo o motivo pelo qual estou aqui. Clamo por justiça. Se Deus, Senhor de toda glória entregou, conscientemente, seu filho a morte e anda livre pelos pensamentos dos homens, por que eu, mortal, não posso estar livre? Não sou Deus, tampouco tenho a Sua sabedoria para lhes explicar o que houve.

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