segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

In dubio pro reo - II

Como prometido segue a segunda e última parte da história.

Carlos Carreiro

In dubio pro reo

II


Ontem à tarde, consegui fazer com que minha advogada, que era minha esposa, relatasse-me o fato que o Destino consumou. Prefiro acreditar que foi ele e não eu, assim a dor pesa menos em meus ombros e o peso da cruz diminui. Cristina, minha ex-mulher e atual advogada, relatou-me o fato com as seguintes palavras:
- Alfredo, não acredito que não lembres do horror que fizeste com aquela pobre criança. Sabes que podia ser o nosso filho. Bom, mas já te falei isso. Já que insistes, vou contar o que aconteceu. Na noite em que saístes do trabalho, ou melhor, foste demitido; chegaste em casa e depois de teres terminado uma garrafa de vinho, brigamos. Pelo que sei (e sei juntando os fatos de teus amigos, amigas e dos garçons) chegaste no bar D. Pedro I e começastes a beber whisky foram algumas doses, e saístes de lá ziguezagueando, destruído pelo álcool. Acho que ainda tinhas fígado para beber mais, pois logo ao centro da cidade e lá, juntamente com teus amigos, bebestes mais um engradado de cerveja. Pelo que te conheço suponho que tenhas ficado quieto e parado, e as únicas amigas restantes para te acompanharem, foram a senhora dona tristeza e a dona depressão. Eu sabia que um dia isso ia acontecer! Quantas vezes não te mandei procurar um médico. A melancolia em que vives não pode ser normal. Não conheço ninguém igual a ti, nem sei porque casei contigo.
- Tá! Cristina. Já sei de todo esse discurso e das minhas amizades cuido eu.
- Tá bom, tá bom! Desculpa. A partir desse ponto quem me contou foi o garçon, viu? Ele disse que alguns meninos de nove ou dez anos começaram a caçoar de você (eles sempre faziam isso com os bêbados). Caçoaram até que você decidiu ir embora, mas tropeçastes. As crianças riram alto, o riso e a felicidade te enfurecem e, naquele momento, tu não conseguistes te conter. Correstes e pegaste uma delas, derrubando a no chão. Levantaste e como o menino não conseguia levantar você começou a chuta-lo. Como viu que algumas pessoas se aproximavam, pegaste o inocente no colo e entraste com ele no bar, dirigindo-se ao banheiro. Todos pesaram que você ia lavar a criança, cudar dela. Mas quando voltaste do banheiro, só viram você e tuas mãos, sujas de sangue. Saíste do local sorrindo. Após isso foram procurar a criança e a viram com o abdômen aberto, sentada no vaso sanitário, com a língua de fora e com o fio da descarga em volta do pescoço.

Foi isso o que ela me contou. Ao terminar saiu chorando dizendo que o resto eu já sabia. Mas Cristina errara, estava errada. Eu não sabia, só lembro que acordei em um hospital com os pulsos cortados, com curativos sobre eles. Não lembro das crianças. Os médicos disseram me que eu chegara inconsciente e que um homem havia me trazido e tido que se eu sobrevivesse, seria uma dádiva divina e eu deveria agradecer a Deus. Antes fosse que estivesse morto agora, e o peso de uma culpa, que minha alma não aceita, eu também não precisasse carregar. Ao contrário do que Cristina pensa, nunca fui melancólico. Eu era distante, isolado das coisas alheias, sempre me preocupei com ela e com meus pais. E se bebi naquela foi pelo único motivo de não conseguir ajuda de ninguém. Os amigos que ela disse que bebiam comigo, eu nunca os havia visto antes. Fui demitido? Sim. E quando precisei de apoio, só encontrei o álcool como outras vezes que aconteceram em minha vida.

Não pensem que eu estou chorando, ou fazendo-me de vítima. O que sinto no peito, é o choro lagrimejante de minha alma inconformada pela injustiça. Ora, não sei o que aconteceu, ninguém viu eu fazendo aquilo que dizem que eu fiz, e aqueles que me conhecem sabem que sou incapaz de levantar a mão contra um semelhante.

De nada valeram me os favores aos amigos, as noites que passei em claro por causa deles, de nada valeram as noites estudando ou dedicando me ao trabalho. Ou as rezas que fazia no domingo pela manha. Não, nada valeu a pena. E lhes digo mais o poeta estava errado, pois minha alma é grande. A dor que sinto é parte da força que ela tem. Mas de nada me adianta isso agora. Meu consolo é consolar me e tentar acreditar que nesse mundo ainda há uma justiça imparcial.

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