Enquanto as gotas de chuva tocavam a minha pele, a água gelada no rosto e o vento frio no corpo, minha fisionomia não era de alguém com frio ou incomodado com a chuva. Eu, apenas, sorria como uma criança que tinha ganho um presente novo, um brinquedo novo. Eu sorria com uma felicidade, daquelas que explodem de dentro para fora, quando você se apaixona ou quando alcança algo que muito quer, uma alegria e felicidade espontânea que você só pensa em prolongar por mais algum tempo, o máximo que der…
Eu tinha 11 anos quando comecei a trabalhar, entregava panfletos no Centro de Porto Alegre. Ganhava o dinheiro da passagem e olhe lá, mas voltava para casa satisfeito e feliz por estar trabalhando; depois fui ser entregador de doces com um vizinho perto de casa. O que eu mais gostava no trabalho eram as refeições xis ou cachorro-quente. Eu tinha só 12 anos e comer toda a semana aqueles lanches e com refri, era um sonho para mim. Eu só trabalhava aos sábados, mas ganhava um dinheiro que nem sei em que eu gastava, mas era do meu esforço. E quando chegava em casa, cansado, eu encontrava um abraço da mãe e conforto do lar. Inconsciente, acho que fui percebendo que eu não precisava de muitas coisas para ser feliz, tinha tudo o que eu precisava: trabalho e pessoas que eu amava.
Pouco tempo depois eu deixei o trabalho, comecei a cansar de trabalhar nos sábados. Foi mais ou menos quando eu tinha 13 anos, na mesma época em que comecei a estudar informática. Nas férias, eu ia para o curso pela manhã e voltava a noite. Era como um trabalho, mas não ganhava nada, era só pela satisfação de aprender que eu fazia aquilo. Mas foi nessa época que comecei a distanciar-me das pessoas. Eu não tinha com quem conversar sobre computadores e programação. A galera estava a fim de outras coisas e eu simplesmente não me encaixava mais na turma.
Com os estudos vieram estágios, mais bicos e o primeiro trabalho com carteira assinada. Alegria só, mas não sei o que houve desde então. Ao longo do caminho eu perdi aquele prazer de fazer algo que eu gostava ou da satisfação de trabalhar em algo que me desse alegria. Foram ótimos anos de trabalho, aprendi muito, muito mesmo. Sobre a vida, sobre as pessoas, sobre metodologia e técnicas, sobre administração. Não foram anos jogados pela janela, mas acho que teve seu preço…
Então, na semana passada, em Dublin, em meio a um vento e aquela chuva, estava eu, vendendo jornais em uma esquina, talvez uma dessas esquinas que Joyce devia ter cruzado em sua juventude. Estava em Dublin, longe de casa, molhado, com frio, com fome, vendendo jornal em uma esquina e simplesmente brotou em mim um sorriso e uma alegria. Eu não me importava em estar longe de casa, não me importava em estar com fome, com frio ou que estivesse chovendo. Eu estava onde queria estar e por menor que fosse o salário, eu o fazia com empenho e tinha orgulho do que fazia.
Eu estava satisfeito comigo mesmo, tinha decidido mudar e tenho tentando aproveitar cada segundo desse processo longo, as vezes desgastante, que eu chamo de mudança. Enquanto ela não passa, seguro cada sorriso e prolongo-o por mais tempo que eu possa. Sinto na chuva uma benção e no vento um abraço que faz com que me aconchegue nos braços da vida e aquele sorriso que há tanto procurei, brotou do fundo da alma porque já não podia mais me conter.

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