quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Os ventos da Irlanda
Os ventos na Irlanda sopraram com mais força nas últimas semanas. Lembro que minha mãe, e antes dela, minha vó, sempre diziam que quando os ventos sopram de maneira diferente são indícios de mudanças. Sinas de que o tempo vai mudar. Para mim, são sinais também, sinais de que a vida segue o seu curso.
Sinais de que mesmo sem que percebamos as coisas mudam. Aquela semente germinada no outono crescerá no inverno e desabrocha na primavera. Na Irlanda o momento é de renovação, a estação de outono chega; já é possível ver as folhas no chão das ruas e dos parques; algumas sementes já começam a ser germinadas. E o ciclo da vida que não para.
Os ventos fortes da Irlanda anunciam mudança de estação, mas junto com a estação, nossos hábitos também mudam; nossa maneira de vestir e de se divertir. Mas quando minha vó dizia para prestar atenção nos sinais, ela não se referia apenas as mudanças na temperatura. Esses ventos irlandeses não trazem apenas na estação.
Na minha vida, percebo que outras mudanças também surgem. Percebo que as coisas ao meu redor movimentam-se. É a possibilidade de um emprego com a garantia de um salário fixo e isso tem um significado todo especial. São esperanças renovadas, em outras palavras, com o dinheiro entrando significa que a estadia por aqui poderá ser prolongada. São as minhas sementes que começo a plantar no outono irlandês, que cultivarei com esforço e dedicação, para que na primavera futura eu possa vê-las florescerem.
Na escola também. Enquanto ainda tenho duas semanas de aula, vejo colegas terminando o curso, outros começando; mudanças de nível e salas de aula. Na semana passada a escola nos presenteou com um passei a Glendalough. Lembro nesse momento dos ventos forte no alto da montanha. Minha vó estava certa, aqueles ventos indicavam mudanças que viriam. Sem saber do futuro nós paramos no alto da montanha e tiramos algumas fotos. Nós juntamos e tiramos uma foto que paralisou o tempo.
Não era uma despedida, mas era talvez a última foto como colegas de aula, depois dessa teríamos as mudanças de salas e as despedidas na escola. Não teríamos mais encontros como colegas, daquele momento em diante, seríamos amigos. Aproveitamos, nos divertimos e dois dias depois as mudanças chegaram. A turma dividida. Como já foi dito, mudanças de nível, de sala, novos alunos, despedidas. Uma coisa normal no cotidiano da escola.
Não sou contra as mudanças. Eu gosto de mudanças, mas às vezes, eu desejo que algumas coisas não mudem, que elas fiquem paradas por mais um momento, só pra gente curtir um pouco mais. É como prolongar o livro degustando as últimas páginas bem devagar, para ver se o prazer dura mais; ou aquele doce que a gente mastiga, mastiga e mastiga para ver se o gosto se prolonga na boca. A realidade me diz que os ventos da Irlanda não pararão; as mudanças continuarão; a vida seguirá seu curso.
Da minha parte só posso aproveitar o dia de hoje, curtir o presente porque sei que há mudanças que não se pode evitar. Mas quando lembro daquele dia, no alto da montanha e olho a foto. Não se trata apenas de uma foto. Vejo a como se tivéssemos paralisado o tempo; registro de um momento que ficará eternizado em minha memória, símbolo material de que a vida é curta e que cada momento é único.


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