segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Procura-se

Não é do meu feitio apenas transcrever ou copiar os textos de outros nesse espaço, mas há dias ou há textos em que realmente queremos compartilhar com os outros. E esse é um desses textos. Gosto da Clarice por diferentes aspectos dos seus textos e da sua atitude diante da vida.

Nesse trecho ela nos apresenta um outro lado do não quer estar só. Nem sempre buscamos no outro, alguém para nos fazer feliz. Sou inclusive daqueles que para querer primeiro ser feliz, precisa se encontrar e aguentar a si, quando passarmos no teste podemos compartilhar os momentos.

No entanto, ao contrário do que algumas pessoas possam imaginar, nem sempre queremos alguém ao nosso lado para nos trazer a felicidade. As vezes, nós simplesmente não queremos estar só. As queremos alguém apenas para compartilhar nossa felicidade, compartilhar nossas pequenas vitórias, queremos um colo, um calor no inverno. Bem, quando você achar que está preparado sugiro que  faça um anúncio mais ou menos como este:
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
Clarice Lispector

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