Recebi alta ontem a tarde. Fiquei em coma mais ou menos uns dez anos. Os médicos me disseram que eu tivera muita sorte, que fora abençoado. Sair de um coma e com todos os movimentos. Fiquei no hospital por mais algum tempo, precisava fazer terapia e fisioterapia, para recuperar-me emocionalmente e fisicamente. Finalmente, recebi alta ontem a tarde.
Não entedia porque ninguém viera me ver. De certo, minha esposa estava com outro e, juntamente com minha filha, estavam morando em outro estado. Meus pais com a idade já avançada não puderam vir ver-me. Tudo bem, em pouco tempo eu veria a todos, consolaria minha esposa, convesaria por horas com os meus pais e desvendaria a vida de minha filha nestes anos que se passaram.
Recebi alta e junto noticias de minha familia. Minha esposa há meses não dava noticias, estavam pensando desligar os aparelhos se ela não aparecesse em breve. Meus pais estavam mortos morreram há dois anos em um acidente de carro. O motorista alcoolizado perdera o controle e chocara o caminhão ao automóvel de meus pais.
Mas nem tudo estava perdido, havia um endereço, na periferia, onde eu encontraria a minha filha. Achei o endereço estranho, lembrava a zona que eu freqüentava quando era mais jovem. Bons tempos aqueles. Coloquei o endereço no bolso, e lembrando as coisas do passado, resolvi matar a saudade de um corpo de mulher antes de ver a minha filha. Eu merecia isto, eu havia recebido a alta. Chegando na zona, entrei em uma casa. Selecionei uma das meninas e percebi que outra me cuidava de longe, parecia muito com minha filha, mas não liguei. Estava subindo com a moça, quando lembrei que não tinha dinheiro. Pedi desculpas e resolvi descer e ir embora. Quando voltei a menina estava apanhando, preferi não me meter e seguir caminho. Andei por umas praças, olhei o céu. O sol estava se pondo. Resolvi procurar a casa da minha filha. Pedi informações e o moço, olhou-me de maneira estranha e pedi que eu retornasse pelo caminho. Achei estranho, mas segui suas orientações.
Estava chegando perto do estabelecimento que eu entrara há pouco, e via aquela linda menina que havia apanhado saindo de maca. Estava morta, caira da escada. Os que conheciam-na olhavam com pena e lágrimas nos olhos; ela não tinha pai nem mãe; a mãe morrer há poucos meses e o pai estava em coma. Levei um susto, comparei o endereço e gritei:
- Nãooooooooo Angela. Nãoooooooo.
Mas era tarde, minha filha estava morta. Me senti como nos anos em coma, paralisado existia um mundo ao redor, mas eu não saia. Eu não conseguia sair, mas agora, eu queria entrar para o coma, sair deste mundo. Mas eu tinha recebido alta, o passe de entrada para um anula a passagem para o outro.

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