Certo dia, um amigo me disse que escritor bom era aquele que vivia de literatura todas as horas do seu dia. Lembro que na ocasião, submergido em meu pensamento materialista, retruquei que no Brasil ninguém vive de literatura. Há quem diga que a ignorância é uma benção, mas achar que não é ignorante é a pedra fudamental da burrice.
Sem saber o porquê, essa conversa voltou a minha mente hoje, não hesitei e pensei é sobre a Literatura que vou escrver hoje. Mas o que é Literatura? Não sei. Tenho tanta certeza da resposta, quanto Camões o tinha quando escreveu sobre o amor em seu poema amor é fogo que arde sem se ver. Entretanto, posso compartilhar com todos o que para mim significa a literatura, tanto no ato de escrever quanto no prazer olimpiano da leitura.
O centro da literatura está linguagem, fator primordial e fundamental da comunicação; é com a literatura que conheci o Egito, os deuses do Olimpo, Cristo, as sociedade hipócritas da Europa, do Brasil, do Mundo. Foi a literatura com suas frases, contextos e textos que me mostrou um novo mundo, onde havia mais de uma opinião, onde era possível um homem ser o que quisesse; um mundo no qual o homem era livre.
A Literatura me apresentou muitas pesoas, uma dessas pessoas que conheci através dela foi Machado de Assis, foi de vista, mas o conheci e com Dom Casmurro tive a grande certeza que nunca teria a certeza de nada. Dostoyevsky me ensinou o poder da culpa, e que quando todos acham que temos tudo é o momento da vida em que mais nos falta amigos. Os românticos, principalmente Alváres, me disse que a dor que mais dói, aquela doida no fundo do peito não sangra, mas deixa cicatrizes na alma.
Um dia, lendo Clarice, ela me contou que eu não era eu. A minha absoluta certeza de quem eu era, se perdeu nos meus eus. Meu chão cai. Como agora, adulto, com a certeza de quem eu era, eu não sabia quem era. Fui até o espelho. E lembrei das palavras de Machado e constatei que Clarice tinha razão, eu era algo que os diziam que eu era; às vezes algo que eu dizia; outras que eu via. O meu eu tinha se tornado um camaleão que muda conforme o ambiente. Eu não sabia mas quem eu era. Estava perplexo, mas Clarice me mostrou num olhar, que no fundo de todos estes eus, no íntimo, existia um eu comum a todos os outros: era o meu verdadeiro eu. Neste lugar me encontrava com o infinito, comigo mesmo. Então sorri, e percebi que a felicidade esta nas pequenas coisas.
Quando conheci a literatura, eu achava que podia fazer tudo. A literatura me provou que eu posso fazer tudo, mas me mostrou mais do que isso. Mostrou me, com crueldade, que eu também tenho limitações. Percebi que às vezes, o melhor na vida é ter limitações; é achar que você realmente não pode fazer algo. Então algo poético lhe toca a alma, e você sabe que não pode, mas por birra você vai lá, tenta e consegue. A satisfação é maior, é melhor. Quando tentamos superar nossos limites nós mudamos, crescemos, e lembramos que a literatura tinha razão: eu realmente não podia fazer aquilo, tive que crescer, amadurecer, tornar uma versão melhorada do que eu era. Este outro eu. E este pode fazer aquilo que o outro não podia.
Não ganho dinheiro com a literatura, também não encontrei nenhum conceito acadêmico para descrevê-la, mas percebo a cada dia que respiro, a cada livro que leio, a cada palavra que escrevo o valor latente que ela me envolve; percebo que se eu não vivo dela, ao menos sei que ela vive em mim.

Um comentário:
Cara, adorei o seu texto... abriu meus olhos para uma coisa importante: o "como sentir" a literatura. Vc bem sabe q até hj - daqui pra frente não sei mais... rs - pra mim a literatura é fruição - afinal, sempre fui da Lingüística -, pois eu encontro nela um refúgio q - senão nunca, pelo menos poucas vezes - a vida não me dá. A inquietude e ao mesmo tempo a segurança estão nos livros... vejo neles um porto seguro, mas tb o tsunami das minhas idéias... Enfim, vamos dar "viva!" a Machado e suas sutis críticas; a Clarice com sua dualidade e seu poder de reflexão; a Camões e sua maneira tão perfeita em descrever o amor; a Shakespeare e seu "ser ou não ser"; e a Kafka e às suas tramas sem resposta... nossas vidas tb não seriam isso: uma trama finita -- tecida pelas 3 parcas - e sem resposta? fica a pergunta... bjs!
Postar um comentário