segunda-feira, 15 de maio de 2006

Querida Tristeza

Pensei em escrever sobre muitos assuntos hoje: arte na internet, política, cinema, amigos de infância; sobre a onda de violência e ataques em São Paulo e outros estados do país; pensei em transversalisar assuntos e tratar daquilo que esta no ar, do que não é visto e que alguns chamam de cultura. É pensei em falar sobre vários assuntos, uns citados, outros não.

No entanto, quero falar de tristeza. Não, não estou triste, mas pessoas que gosto muito estão e isso mexe comigo. Vou personificá-la, não me leve a mal, eu preciso fazer isso; preciso lhe dar vida, preciso ve-la. Há muito que precisa ser dito e não posso me esconder atrás de um computador e xingar o vento, falar desaforos escorregadios para ninguém. Personificando-a dou lhe vida, e posso sentir o gosto amargo da raíva e degustar o meu prazer em humilha-lá.

A Tristeza é uma mulher demônio. Não é uma mulher, é uma coisa asquerosa e pegajosa, uma coisa irritante e revoltante. Penso nela como uma mulher que só me faz sofrer. A primeira vez que a vi, não lembro ao certo, talvez tenha sido no tempo do jardim. Estava tudo bem, ia conhecer pessoas novas, novos amigos, novas crianças com quem brincar. Caminhava ao lado de minha mãe feliz e contente; chegamos na escola e minha mãe se foi. Algo dentro de mim cresceu, cresceu muito, não consegui segurar, chorei e gritei. Incorformado, a vi, a Tristeza, do outro lado, sorrindo para mim e me abanando. Pensei que o meu mundo fosse acabar, eu tinha sido destruído, despedaçado, o coração esmagado. Não consegui me divertir, não fiz amigos, não lembro de ter conhecido ninguém além da Tristeza naquele dia.

O tempo passou, minha mãe se foi, a menina cresceu e se tornou uma linda mulher por fora. É, os poetas, os escritores, pintores, os artistas embelezam-na tanto que, não é raro desejá-la, mas eu sei que dentro ela esconde algo nojento. Já tentei inúmeras vezes dizer-lhe o que sinto, mas sua presença me enfraquece, fico simplesmente sem ação, como agora.

Não consigo odiar-lhe, a Tristeza nem é tão má. O problema dela é que ela é muito só, ninguém lhe ama. Ao pensar nela, eu tenho pena e até choro, porque isso é triste: ser só; não ter ninguém para compartilhar os sonhos, as suas alegrias, suas conquistas. Eu não tenho ódio, porque agora eu entendo aquele dia na escola. O dia em que encarei a Tristeza lá na escola e ela me abanou. Era a maneira que ela tinha de dizer me que também fora abandonada, que era triste, que com ela eu poderia brincar, mas eu fui mais cruel, esperniei e não quis brincar, eu a neguei.

Tristeza sei estivesses presente nos momentos mais dolorosos da minha vida, mas quero que entendas que somos diferentes, eu tenho planos quero poder rir e chorar na mesma medida. Vá me visitar de vez em quando, mas não podemos ter nada mais sério do que isso.

Adeus.

Um comentário:

Anônimo disse...

Menino,
talvez devesse ter lido este texto antes, mas talvez eu nao estivesse preparada para perceber a real identidade da Tristeza... Por muito tempo vivi iludida com a tristeza que eterniza, pelo menos nos romances... Agora o que mais quero eh ser feliz. Nao quero ser hipocrita, mediocre ou o que for, mas nao quero mais ficar triste... Ja me machuquei demais. Alem de lindo e sensivel, seu texto foi extremamente esclarecedor. Obrigada por Tudo! Beijinhos...

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