terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sobre a chuva lá fora

Lá fora chove. Escuto as gotas que batem no teto. Deitado, a chuva parece ser uma música que acalma e nos chama para um aconchego ao lado daqueles que amamos. Uma chuva, uma doce chuva para acalmar a alma e aquecer os corações.

Tenho dois olhos e minha visão é a soma dessas duas perspectivas. E isso me faz pensar que a chuva sem um teto sobre a cabeça não é confortável. Ao contrário, é uma experiência dolorosa. Dói o frio que se sente na pele e que gela o a alma. Talvez por essa metáfora de gelar a alma, é que a ideia do calor seja tão explorada. Publicitários adoram usá-la nas campanhas de arrecadação de roupas para as pessoas carentes. Lembram do“aqueça essa idéia”.

Não é uma crítica a essa exploração. Absolutamente, até creio que seja uma idéia bem pensada. No caso da chuva: da mesma maneira que geramos calor quando estamos em nossa casa, na ausência de um teto e com muita água caindo, o que resta é o desespero. Nesse desespero cedemos o espaço da solidariedade para a ignorância, a ganância e o egoísmo. É que aquilo que une também separa. De repente, quando percebo que posso ter algo MEU. Passo a exigir: um teto só para mim. Quero me trancar dentro de casa, escutar a chuva que cai lá fora, mas ignorar os gritos dos aflitos. Dentro de casa é só uma chuva. Não percebo a forca irracional da água que cai, não vejo que ela enche as ruas, arrasta árvores, alaga casas, destrói vidas.

Lá fora chove. Eu ligo a TV. Quero cegar-me, estar no lugar comum e ignorar as vozes dentro de minha cabeça e aqueles gritos lá fora.

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