sexta-feira, 21 de abril de 2006

Pra recomeçar

A vida é um sempre recomeçar. Há quem diga que morremos e vivemos muitas vezes, na mesma vida. Este blog, pelas faltas de atualizações que teve, vive assim morrendo e renascendo, no entanto sua presença é constante.

Confesso que ele não tem ganhando a prioridade necessária em minha vida. Há coisas mais importantes, embora eu padeça de uma carência de literatura. Tenho recomeçado a ler algumas coisas, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Osman Lins, Fernando Pessoa. Há mais de um ano que tenho lido trecho desses autores.

Revisito-os constantemente, bem menos constante do que eu queria, mas assim mesmo os revisito. É a minha maneira de mostrar ao mundo e provar a mim, que não existe só desgraça; que no mundo há muitas coisas que faz a humanidade se orgulhar de sua existência. A leitura e a literatura me prova isso com mais freqüência, mas as artes em geral tem esse poder, principalmente a obra-prima que nós somos e aquela que construímos diariamente, a nossa vida.

A literatura me faz mais humano e cada vez que percebo isso, tenho mais orgulho de mim. Não sei explicar porque gosto tanto de ler. Às vezes, leio para fugir da solidão; outras, para não pensar na politica nacional, nas injustiças, mas leio fundamentalmente para sentir-me vivo, com esperança renovada e com a força restaurada. Lamento profundamente, por aqueles que não sentem esse prazer da leitura. Esse refugio dos intelectuais, dos letrados, dos estudantes, dos sonhadores, dos contadores de história, dos solitários... Um refúgio para criar novas vidas, para viver novas emoções, para a aprender a construir um mundo real mais digno e humano, para reconstruí-lo, enfim para recomeçar.

Pra recomeçar este blog escolhi a literatura, ou melhor, um poema de Alváro de Campos, heterônimo de Fernado Pessoa, chamado Lisbon Visited (1923). Por que esse poema? Porque é um recomeço.

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

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